domingo, 21 de agosto de 2011

Enquanto você dormia - Wendy Burge - cap 1


Prólogo

Março de 1882, Castelo Camden, Oxfordshire.


Katherine abriu um pouco a cortina de veludo, deixando en­trar a luz do sol na sala escura. A claridade feriu seus olhos, que ela manteve semicerrados enquanto olhava para o alvoroço que acontecia no pátio abaixo. Estoicamente, observou o grupo de jovens que riam e conversavam, numa reunião para a qual não havia sido convidada. Não se importava em saber que nunca seria convidada a participar, embora um dos jovens fosse seu próprio marido.
Por que simplesmente não vão embora, pensou impaciente, enquanto levava os óculos até os olhos.
A atenção de Katherine voltou-se para Alicia Barrows, vestida de veludo cor de vinho. A roupa delineava as curvas com que Deus a agraciara, para combinar com os traços igualmente belos do seu atual amante: o marido de Katherine.
Ambos pareciam conscientes do belo quadro que formavam juntos. Eram dois esplêndidos predadores, alimentando a vaidade um do outro.
Com despreocupação arrogante, os amantes permaneciam indecentemente próximos no meio da aglomeração. Consciente de que eram observados por Katherine através da janela da biblio­teca, Alicia se esticou para passar a mão na cabeleira loira de Halsingham; então, ergueu a cabeça e olhou para Katherine por sobre os ombros do amante. Com um sorrisinho cruel, disse algo ao ouvido de Halsingham, que imediatamente soltou uma garga­lhada e olhou para a esposa.
Ignorando-o, Katherine fitou Alicia, que sorria de modo cínico. Ela não era a primeira amante, nem seria a última; e quando dei­xasse de divertir seu marido, haveria outra para substituí-la.
Finalmente, o grupo montou nos cavalos e nas carruagens para iniciar a longa volta a Londres.
Um suspiro de alívio escapou dos lábios de Katherine, e seus olhos se detiveram em seu marido mais uma vez. Viu-o beijar os lábios da amante, e se pôs a pensar se eram assim tão calorosos quando estavam no quarto, longe daquela platéia bajuladora.
Katherine afastou-se da janela e saiu da biblioteca.
Ao entrar na sala de desjejum, notou que seu pai ainda se en­contrava à mesa. Engolindo seu desapontamento, sentou-se.
Lorde Camden ergueu os olhos do jornal londrino e olhou para a filha com indisfarçável contrariedade. Considerava absurdo que ele e sua linda esposa tivessem produzido uma criatura tão sem atrativos.
Com vinte e um anos de idade, Katherine Beatrice Camden-Carey, viscondessa Halsingham, não tinha nada que a recomen­dasse. Além de ter baixa estatura, estava acima do peso. Camden achava desagradável ter que olhar para ela. Se alguém lhe pergun­tasse a cor dos olhos de sua única filha, o lorde não saberia res­ponder. Katherine sempre usava aqueles horríveis óculos cor-de-rosa! Nem a cor dos seus cabelos Camden sabia, pois a viscondessa os mantinha puxados para trás e cobertos com uma touca branca de linho. Seu excesso de peso e a roupa cinza que usava em todas as ocasiões lhe davam uma aparência nada feminina. Sua única qualidade, se é que se podia definir assim, era a pele aveludada e um andar gracioso, apesar do peso excessivo.
Na verdade, Camden gostaria de se esquecer da existência da filha; mas isso seria impossível antes que ela lhe desse um neto e herdeiro para sua antiga linhagem, que corria perigo de se extinguir.
Katherine era uma pessoa insignificante, mas importante para o futuro dos Camden.
Seu ciclo menstrual, porém, era infalível. Camden recusava-se a acreditar que Katherine pudesse ser estéril, mas, se fosse, poderia repudiá-la e teria muito prazer em fazê-lo.
Olhando através dos óculos, Katherine notou a sempre presente animosidade do olhar do seu pai. Nervosa, pegou um pedaço de pão e o levou à boca; mas não sentiu o gosto da manteiga, e sim o gosto metálico e ácido do ódio.
— Espero que tenha tido a cortesia de desejar uma boa viagem a seu marido e convidados — disse Camden, virando a página do jornal.
Mantendo os olhos baixos, a viscondessa respondeu, com voz tímida:
— É claro, milorde.
Ele até entendia que seu genro fugisse da cama daquela mulher desagradável. Em troca de pagamentos de dívidas, o visconde fora "comprado" para duas coisas: casar-se com sua filha e engravidá-la. Camden não se importava se o bastardo engravidasse outras mulheres, desde que fizesse o mesmo com Katherine. Porém, a paciência de Halsingham já se esgotara. Suas ausências não iriam mais ser toleradas. O desgraçado estava brincando com fogo. Se não cumprisse logo com sua parte do contrato, Camden deixaria de pagar-lhe as dívidas e lhe negaria crédito.
Já tivera paciência demais, e isso não era uma característica de sua personalidade.
— Presumo que seria muito querer um herdeiro para daqui a nove meses? — o conde perguntou, de súbito, à filha.
Katherine teve vontade de rir na cara do pai e dizer-lhe o quanto era estúpido, pois parecia não ter percebido que seu marido se deitara em outra cama naquela noite. O simples pensamento de ser tocada por um homem que a achava repulsiva era intolerável. Tê-lo no quarto durante uma hora, que ele passava sentado perto da lareira, era mais do que conseguia suportar.
Depois de três anos de casada, permanecia virgem e pretendia continuar assim. A idéia de ter o filho arrebatado de seus braços para ficar à mercê daquele homem frio era impensável. E se desse à luz uma menina como ela? Respirando fundo, mentiu.
— Isso apenas o tempo dirá, milorde.
Apesar da frieza aparente, Katherine começou a suar e, sem saber o que fazer, pegou outro pedaço de pão. O ato enfureceu Camden, que se esforçou para manter-se impassível. Mas quando viu a filha mergulhar a colher em um pote de geléia, não conseguiu mais se conter.
— Por Deus, não sabe fazer outra coisa além de comer o dia todo?
Katherine afastou a mão do pote de geléia. Depois limpou os lábios com um guardanapo de linho e levantou-se.
— Com sua permissão, senhor?
Sem esperar pelo consentimento do pai, saiu da sala com a cabeça erguida.
Suspirando, Camden voltou a ler o jornal.
Minutos depois, uma linda melodia tomou conta dos corredo­res, as notas impecavelmente executadas por um verdadeiro virtuose. Camden jogou o jornal no chão e foi em direção da ofensiva música.
Quando percebeu a presença do pai, Katherine parou de tocar e pôs as mãos no colo, mas não olhou para Camden. Ele se apro­ximou, cheio de fúria, e aplacou sua raiva fechando a tampa do piano com violência.
— Não posso mais agüentar a sua presença! — o conde gritou, tentado a apertar o pescoço da filha.
Mas não podia. Ainda não. Precisava de um herdeiro. — Você vai partir para Londres. Imediatamente! E trate de engravidar logo daquele biltre imprestável! Halsingham já foi muito bem pago para isso, e não lhe darei nem mais um centavo. E você não voltará até que esteja grávida do meu neto! Se não pode desempenhar uma tarefa tão comum, então deverá ir para Bridden.
Dito isso, Camden saiu da sala pisando forte, seus passos ecoan­do por todo o ambiente.
Katherine fechou os olhos. Bridden, novamente. O Castelo Camden ou um asilo de loucos. Qual a diferença?
Com silenciosa eficiência, um criado fechou a porta dupla para dar privacidade a Katherine. Ele tinha muita pena da pobre moça, a cabeça abaixada, sentada imóvel na frente do instrumento que ela executava com maestria. Os olhos dos dois ainda se encontra­ram antes que o criado cerrasse as portas; e ele ficou surpreso com o ódio que viu no olhar de sua patroa.
O cheiro de umidade, combinado com o ruído das rodas da carruagem, deixava Katherine enjoada. Mas esse incômodo nem se comparava aos tormentos que teria de agüentar até que a car­ruagem gelada e velha chegasse a Londres.
Uma tempestade com raios os atingia, e Katherine temia que a carruagem se desintegrasse ou que Liam, o cocheiro, perdesse o rumo.
Quase sem gás, as lanternas do interior da carruagem propor­cionavam uma iluminação fraca demais, porém suficiente para que Katherine visse a palidez de Jassy, sua velha governanta. Aproxi­mou-se da pobre mulher, e se espantou ao ver como Jassy ficara febril na última meia hora. Cobriu a velha senhora até o pescoço com um cobertor, e pôs sua própria manta sobre as pernas dela.
Um raio iluminou o interior da precária carruagem. Antes que a escuridão voltasse, um grito agonizante foi ouvido. Sem pensar duas vezes, Katherine segurou no trinco da porta e pôs a cabeça para fora, apesar da chuva torrencial. Seu chapéu foi arrancado, mas ela conseguiu chamar o cocheiro:
— Liam! — gritou desesperada para vê-lo.
Outro raio permitiu que visse a perna do cocheiro pendurada para o lado. Mais um forte sacolejo e a carruagem saiu do rumo. A porta do veículo abria e fechava ao sabor da ventania, quase jogando Katherine para fora. Ouvindo um ruído de vidro quebrado, ela cobriu o rosto com as mãos a tempo de proteger-se contra os fragmentos de vidro arremessados para dentro da carruagem pela fúria do vento.
Apesar do medo, Katherine esticou o braço pela janela e tentou agarrar a perna de Liam, que estava caído e imóvel. A carruagem disparara perigosamente. Jassy gritava, mas seus gritos mal eram escutados em meio ao som aterrorizante da tempestade e dos raios.
Katherine tentou chegar perto de Jassy, mas foi jogada contra o banco de madeira. Sentiu uma forte dor no peito, e mal conseguia respirar. Ficou caída no chão, com as saias encharcadas; e a car­ruagem desgovernada continuava sua marcha rumo ao nada.
Vamos morrer, pensou, sem se importar mais com o que acon­teceria em seguida. Subitamente, ocorreu-lhe que sua morte atra­palharia os planos de Camden em relação a sua herança; sentiu-se vingada ao perceber que anos de negligência e abuso não ficariam impunes. E sorriu.
A carruagem descontrolada inclinou-se para o lado e desabou em um barranco. Katherine sentiu que caía, e ouviu apenas o re­linchar desesperado dos cavalos. E não viu mais nada.


Um comentário:

  1. Oi Annie! Gostei muito desse capitulo, é uma estória que pelo visto irá prender minha atenção, mas espero que tenha uma certa frequência nas postagens vice, rsrs. Vê se não enrola do jeito que tem feito com sua fic non tá? Bjoss linda!!! E espero pelo próximo cap...

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