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Enquanto você dormia - Wendy Burge - CAp 2


Capítulo I
Julho de 1882,
Solar Dereham, nas colinas Chiltern


Os dois se olharam. Vidro quebrado e flores espalhadas pelo chão. Nenhum deles se moveu, mas a forte governanta tinha a vantagem do peso e da sobriedade contra o homem embriagado a sua frente.
— Se o senhor pensa que eu vou limpar essa bagunça, está enganado! — a senhora disse, com forte sotaque escocês.
Ao notar as sobrancelhas erguidas de lorde Sinclair, a mulher apoiou a mão sobre os amplos quadris e apontou o vaso que o homem havia quebrado em uma atitude infantil.
Sion Sinclair, o sexto marquês de Dereham, virou-se lentamen­te, os lábios desdenhosos, olhando para a sala suja.
Teias de aranha pareciam rendas frágeis nos cantos das paredes; havia pratos sujos sobre a escrivaninha e sobre algumas cadeiras, e o chão estava imundo. O cheiro de comida deteriorada e de bebida derramada permeava o ar. Terminada a inspeção, o marquês con­templou a beligerante criada com desdém.
— Limpar, Sra. Turlow? O que isso significa? É óbvio que sua interpretação dessa palavra difere muito da minha. Na verdade, difere tanto que a senhora está despedida.
Chocada, a criada arregalou os olhos e zombou dele:
— Verdade, milorde? E quem vai ocupar o meu lugar? Que outra pessoa em sã consciência trabalharia nesse asilo de loucos? Quem o suportaria, com suas raivas, vomitando dia sim dia não e destruindo este belo solar? Limpar, o senhor diz? Para quê? Quer uma casa limpa para demolir? — Ergueu um dedo para o teto. — E ela! Aquele corpo lá em cima. Tenho de forçá-la a alimentar-se três vezes por dia, e trocar a roupa de cama da coitada diariamente, para que não fique deitada sobre a sujeira... Sem mencionar que preciso verificar o tempo todo se a pobre ainda está viva! O senhor tem sorte de contar comigo!
— Você está despedida — reiterou o marquês, com olhar frio.
— Muito bem, já entendi. Vou embora. Mas quando pedir que eu volte, pagará caro pelo meu perdão. Deus o castigue e boa sorte!
Enquanto o som dos passos da criada morria no corredor que levava à cozinha, Sion, já arrependido, olhou para o cômodo que em dias melhores fora uma elegante biblioteca.
— Ela tem razão — resmungou. — Joguei fora duzentos anos de orgulho dos Dereham.
Cambaleante e pisando nos cacos de vidro, voltou à escrivani­nha praguejando.
Sentou-se pesadamente em uma cadeira de couro e, apático, deixou a cabeça cair para trás. Olhou uma mosca que tentava es­capar de uma teia de aranha; e ocorreu-lhe que, assim como aquela mosca, havia sido aprisionado pelo próprio destino. E quanto mais a mosca tentava fugir, mais enredada ficava. Não adianta lutar, pensou.
Erguendo-se, pegou uma garrafa e a levou aos lábios. O líquido azedo parecia bile. Em apenas um gole esvaziou o conteúdo, e atirou a garrafa no chão.
Sion detestava ficar bêbado, odiava não ter o controle da sua vida; mas odiava mais os pesadelos e as memórias que o assalta­vam. Paralisar a mente com álcool parecia a coisa mais lógica a fazer... ou, então, meter uma bala na própria cabeça. Por alguma razão que desconhecia, ainda insistia em continuar vivo. Sonhava que chegaria, enfim, o dia em que teria paz e perdão. Sonhava e ao se deitar com Tory em um sono tranqüilo que duraria para sempre, abençoado pelo filho deles, dormindo seguro entre os dois.
A solução estava tão perto... Bastava esticar o braço para pegar a arma. Por que ainda lutava para viver outro dia sem sentido? Talvez fosse castigo de Deus por seu crime, por seu fracasso im­perdoável. Talvez aquilo fosse o inferno. Vivo ou morto, era isso que lhe restava: o tormento de uma constante solidão.
Qual era mesmo o ditado? "Apenas os bons morrem jovens?"
Fechando os olhos, Sion conteve as lágrimas.
Deus, Tory, por quê? Por que você?
O som de passos chamou sua atenção. Seria a criada novamente querendo confrontá-lo?
Abruptamente o som parou, e Sion, olhando para a porta, viu uma bandeja nas mãos da Sra. Turlow.
— Isto é para a garota. O senhor se lembra dela, não é? — perguntou a mulher, parada na soleira da porta.
O marquês teve vontade de fechar os olhos, mas não ia deixar que a sra. Turlow vencesse a contenda. Ainda era um Dereham e, mesmo bêbado, era superior.
Infelizmente a criada o conhecia bem, e Sion percebeu que não poderia enganá-la quando um sorriso aflorou nos lábios da mulher.
— Sua bebida está acabando. O que resta ficou no porão. Sion não queria ser digno de pena, e, agarrando-se ao pouco que lhe restava de orgulho, ergueu a cabeça para olhar para a mu­lher. Quando um molho de chaves foi atirado sobre a bandeja, ele imediatamente pensou qual das peças abriria o porão.
— O demônio tenha piedade de sua alma, milorde, pois certa­mente Deus o abandonou há muito tempo. — Com um meneio de cabeça, a criada se afastou.
Sion sorriu de modo melancólico. Sim, sem dúvida fora aban­donado por Deus no momento em que perdera esposa e filho.
Por alguma estranha razão, olhou para a teia de aranha nova­mente. A mosca debatia-se para escapar, mas a aranha cobriu o corpo de sua vítima, que parou de lutar. Sion pegou a arma e atirou na teia, abrindo um enorme buraco no teto. Pelo menos a pobre mosca estava livre da sua miséria.
Jogou a arma sobre a mesa. Apenas queria que alguém fizesse a mesma coisa com ele, para livrá-lo daquela vida sem sentido.
Levantou-se e olhou para a comida da bandeja.
Então, agora terei que alimentar aquela estranha lá em cima?
Como faria isso? Pelas conversas da senhora Turlow, a garota estava mergulhada em um sono sem fim. De qualquer modo, se ainda não estivesse morta, a podridão ao redor faria o serviço. Bem, se tivesse mesmo que cuidar da estranha precisaria de um fortificante.
Aproximou-se de uma mesa cheia de garrafas e encontrou uma que ainda tinha algum conteúdo. Tomou tudo de um só gole. O gim barato queimou-lhe a garganta.
Limpando a boca com as costas da mão, Sion caminhou em direção à porta. Lembrou-se da bandeja e voltou para pegá-la. Imediatamente, o cômodo girou, fazendo círculos ao seu redor, e ele caiu.
— Droga! — resmungou, tentando levantar-se.
Mas o que estava fazendo? Chafurdando no chão devido à res­ponsabilidade que pensava ter por uma mulher desconhecida?
Fez grande esforço para erguer-se, pegou a bandeja e foi até a escada. Olhou para cima, pensando que há muito tempo não subia aquela escada. Subitamente, sentiu raiva. Aquela garota não era responsabilidade dele, e sim da sra. Turlow, que a abandonara.
A jovem não dependia de seus cuidados como Tory dependera. Além do mais, já fizera sua parte levando a garota para o andar superior. Encontrara-a em uma carruagem destruída, carregara-a até sua casa e a pusera sob os cuidados da sra. Turlow.
Por que o destino de uma estranha devia importar para ele? Não era problema seu se a desconhecida vivesse ou morresse.
E o que poderia fazer pela moça? Não sabia nada de enferma­gem. Isso era função das mulheres. E se tentasse cuidar da garota e ela morresse?
Uma gota de suor escorreu por sua têmpora, e Sion começou a tremer. Suas mãos formigavam. Sabia de antemão o que viria: sangue. Tinha as mãos sujas de sangue. Sangue dela. Sangue do seu filho. Estava sempre ali; sentia o cheiro, e podia sentir o gosto. Sempre, sempre. A culpa nunca o abandonaria.
— Perdoe-me... — ele sussurrou em agonia, a voz pesada, à espera das lágrimas que nunca vinham. — Perdoe-me, Tory.
Esquecendo-se da garota, voltou cambaleante para o seu san­tuário. Bateu a porta, e o ruído fez-se ouvir no corredor do Solar Dereham.
Em um quarto escuro no andar superior, jazia uma figura soli­tária, esquecida e indesejada, como fora durante toda a vida.
Mas agora dormia em paz, como em um casulo acolhedor e saudável, insensível ao mundo que a magoara. Dormindo, o tempo passava, e sonhos impossíveis a acalentavam. Agora tudo podia miraculosamente ser-lhe oferecido.
O tempo, como o mundo conhecia, era diferente para aquela jovem. E seu corpo ia se modificando e se livrando de todas as correntes de sua vida passada.
Dia a dia, as paredes da sua prisão iam derretendo, e ela ficava cada vez mais forte e mais confiante em si mesma, determinada a viver de modo pleno. Logo acordaria para uma nova existência, para o começo do resto de sua vida.
Uma vida criada especialmente para ela.
Algum tempo depois, Sion esticou-se na cadeira. De tão suja, a janela não lhe permitiu identificar se a claridade era do dia ou da noite. Tentou tomar um gole, mas a garrafa estava vazia. Le­vantou-se, foi até a porta aberta e gritou.
— Sra. Turlow!
Como não ouvisse resposta, foi para o corredor e então parou confuso.
Cambaleante, dirigiu-se à cozinha. O silêncio era pesado; ele sentiu como se estivesse em uma caverna escura. O fogo da enorme lareira havia se transformado em cinzas frias.
Subitamente, lembrou-se de que a criada tinha ido embora. Dan­do de ombros, voltou à cozinha para ver se encontrava alguma coisa para comer. Levou alguns minutos para achar uma lâmpada de gás e acendê-la. Um rato passou sobre seu pé e sumiu em um canto do cômodo. Foi até a lareira, mas não havia nem madeira nem carvão para reacendê-la.
Olhou ao redor e viu várias portas fechadas, e apenas uma aber­ta. Entrou no que deveria ser uma despensa, mas nela só havia ratos. Onde a criada guardava as provisões?
Praguejando, bateu a porta e foi na direção de outras duas portas, trancadas. Começava a crer que não encontraria nenhuma bebida.
De repente, lembrou-se da estranha no andar de cima. Foi até a escada e subiu com determinação. Hesitante, olhou para várias portas, tentando descobrir em qual quarto a mulher dormia.
Entrou em um deles e viu a garota deitada. Uma coberta fina delineava o corpo magro, e ela parecia morta. Aproximando-se, Sion tocou-a, em busca de algum sinal de vida.
Um raio de sol penetrou através da cortina, e o marquês pôde ver o perfil magro e ferido. A moça estava morta ou próxima da morte.
Fechando os olhos, ele murmurou:
— Deus, outra vez não!
Pôs a mão no pescoço da estranha para sentir se ainda tinha pulsação.
Sim, tinha! A jovem vivia ainda!
Sion piscou e a examinou. Os ossos da face eram protuberantes, os cabelos sem brilho. Precisava ser alimentada. Precisava de cuidados.
A vida daquela estranha garota agora dependia totalmente dele. Deus estaria brincando com sua dor, ou seria uma segunda chance?


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