segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Enquanto você dormia parte 7


Muito tempo atrás, Camden deixara bem claro que Katherine nunca teria liberdade. E ela, covardemente, aceitara aquela impo­sição sem se rebelar. De repente, seu mundo foi virado de cabeça para baixo; e ali estava ela, livre, depois de um sono de reabilitação. E seus sonhos haviam se transformado em realidade.
Não sabia quanto tempo ficara ali, de joelhos e com a cabeça abaixada. Ao se levantar, sentia-se febril, mas também purificada de toda a raiva e frustração. Katherine havia sido uma alma per­dida. Talvez agora encontrasse a paz.
— Eu a amo, Jassy; e amo você também, Katherine. Obrigada, e que Deus as proteja. Por favor, não se esqueçam de mim.
Agora sua vida não tinha mais fronteiras, e ela podia fazer tudo ou nada. Dependia apenas de sua vontade.
Afastou-se da sepultura e caminhou em direção ao futuro.
Antes de chegar ao solar, sabia quem era e o que desejava da nova vida que recebera. E foi procurar Sion.
O marquês certamente saberia entender sua necessidade de li­bertar-se dos fantasmas do passado.
Nunca esqueceria aquele dia. Era o dia do seu nascimento: 30 de setembro de 1882.
— Você quer o quê? — Sion perguntou a Katherine, que en­trara na biblioteca sem se anunciar.
— Gostaria de ter um túmulo com a seguinte inscrição: "Katherine Beatrice Camden-Carey, viscondessa Halsingham, 1860-1882".
— Por que deseja pôr essa inscrição no túmulo de Jassy? Pelo olhar de Katherine, Sion percebeu que chegara a hora de suas confissões.
— Há uma hora atrás eu não tinha a menor idéia do caminho que tomaria — ela disse, sentando-se na frente da escrivaninha de Dereham. — Na verdade, Jassy me instruiu.
— Jassy? — Sion recostou-se na cadeira. — Pode explicar?
— Preciso?
Oh, sim, precisa.
— Lembra-se de como era Katherine na primeira vez que a viu?
— Na realidade, não — Sion respondeu, depois de breve hesi­tação. — Eu não estava em condições de me lembrar de nada.
— Vamos, não precisa ser diplomático.
— Bem, não me lembro muito bem, mas...
— Eu era gorda.
— Não ponha palavras em minha boca. Mas se insiste...
— E como sou agora?
— Uma mulher bonita e...
— Não quero que me elogie, mas aquela mulher que você res­gatou não existe mais. Você me reconheceria?
— Não, mas eu não a conhecia antes.
— Acredite-me. você não prestaria nenhuma atenção em Katherine.
— Não, mas as pessoas que a conheceram antes certamente não teriam esse problema.
— Não concordo com você. Toda vez que me olho no espelho, não vejo nenhum sinal de Katherine.
— Você não conseguirá se livrar, minha cara.
— Livrar-me do quê?
— Você sabe. Pare de me tratar como se eu fosse um tolo. Deve haver alguém na sua vida que saberá que isso é um blefe.
— Acredite-me, ninguém seria capaz de reconhecer Katherine Camden-Carey na mulher que você está vendo agora.
— Por que essa fraude?
— Liberdade, Dereham. Liberdade.
— Você é casada?
— Sim, Katherine foi casada durante três anos.
— E acha que seu marido não a reconheceria?
— Tenho absoluta certeza que não.
— E surpreendente. Difícil de acreditar. —- Confie em mim.
— E quanto a seus pais?
— Katherine tinha apenas três anos quando a mãe morreu. E o pai nunca se importou com ela.
— Nomes, por favor.
— O pai de Katherine é o conde de Camden, Arthur Phillip Marlowe; e seu marido, o visconde Halsingham, Reidlen Carey.
— Camden — Sion murmurou. Então ela era filha de Camden, um vizinho que sua família sempre evitara. — E o que pretende? — Era grande a curiosidade de Sion.
— Informá-los de que Katherine morreu.
— E quem é essa pessoa sentada a minha frente?
A jovem se levantou, e fez uma mesura graciosa, como se es­tivesse se apresentando.
— Danae Suriano, a contessa di Sala — declarou, com perfeito sotaque italiano.
— Danae é um nome incomum.
— Trata-se de uma heroína da mitologia grega, Sion. Seu pai, em um surto de raiva, trancou-a em um caixão e a jogou no mar. Para morrer.
— E ela morreu?
— Não. Flutuou durante dias até ir dar em uma praia, onde foi resgatada por um rei.
Os dois se olharam por alguns segundos, um estudando o outro.
— E quem será Danae Suriano?
— Sua amante.
Quê? A minha... am... amante?
— Não de verdade, é claro. Você me apresentará como a viúva de um nobre italiano. Quem iria saber que você nunca esteve na Itália? Está afastado da sociedade há anos.
— Mas por que tudo isso? — Sion indagou, perscrutando a expressão dela.
— Pela primeira vez na minha vida tenho a chance de viver, de conhecer pessoas... Quero ter motivos para rir! Acho que nem sei rir. Não é engraçado?
— Se continuar com esse plano, Katherine, violará a lei. Se for descoberta, será castigada severamente. Até Camden será melhor do que uma prisão.
— Nunca, ouviu? Nunca! — Katherine levantou-se de modo abrupto. — Nada poderá ser pior do que aquele inferno! Tenho vinte e dois anos. Até o dia do meu casamento, nunca pus os pés fora do castelo. No dia do meu casamento, meu marido, um homem que eu nunca havia visto, me disse que não suportava nem mesmo olhar para mim. Dormiu no chão e foi embora na manhã seguinte. Mas Camden mandou buscá-lo. Ele dormiu de novo no chão, dessa vez no quarto de vestir. Como ambos tínhamos interesses, chega­mos a um acordo. Ele não tocaria em mim, e eu não contaria a Camden que ele era incapaz de engravidar-me. Mas no mês se­guinte, quando fiquei... Bem, quando Camden percebeu que eu não havia engravidado, bateu em mim. E todo mês, depois de saber que mais uma vez eu não tinha engravidado, meu pai me batia. — Lágrimas insistiam em cair por seus olhos. Depois de alguns mo­mentos, continuou: — Tanta humilhação não seria nada em com­paração ao que Camden faria a Katherine se descobrisse que ela ainda era virgem.
Sion nada disse. Apenas olhou para Katherine, que pela primei­ra vez na vida encarou um homem.
— E então, Sion?
— Eu a ajudarei... Danae.
— Bem, será apenas uma farsa até que eu me estabeleça, en­tende?
—Devo informar-lhe de que sou péssimo em farsas. Certamen­te terei que conhecê-la melhor para me fazer passar por seu... amante.
— Está me provocando — ela disse, sorrindo.
— De modo nenhum. Asseguro-lhe que precisará de alguma prática. Sou conhecido pelo meu bom discernimento em relação a amantes, e prometo-lhe que serei paciente. Praticaremos até que você se sinta confortável em seu papel. Papel que você escolheu. Serei apenas seu humilde tutor.


Capítulo II
Castelo Camden, dezembro de 1882

Depois de tomar um gole de conhaque, Camden leu novamente, com mais vagar, a carta que recebera. Então, Katherine estava morta. E com ela, a continuação de sua linhagem.
Olhou para a assinatura da carta. Fazia anos que não ouvia falar em Sion Sinclair.
Desgraçada! Desde o dia do seu nascimento, Katherine fora um espinho em sua vida. Parecia até que a infeliz havia planejado sua morte para se vingar dele.
O que faria agora?
Uma esposa morta e nenhum herdeiro. Sempre tomara cuidado de não ter um filho fora do casamento que pudesse reclamar sua herança.
Pensativo, olhou fixamente para o fogo na lareira. Tinha que fazer alguma coisa. Precisava encontrar Dereham e averiguar que papel o marquês tinha naquilo tudo. De repente, pensou em Halsingham. Sem dúvida ele viria reclamar sua herança. Era o viúvo de Katherine, tinha direitos.
Quando pusesse as mãos no inútil, faria com que se arrepen­desse de estar vivo. Pagara uma fortuna para que ele engravidasse Katherine, e o idiota nada fizera.
Naquele momento, teve vontade de castrar o desgraçado.
Camden serviu-se de mais conhaque, e depois de um gole jogou o copo na lareira acesa. Houve uma pequena explosão e ele sorriu, selando seu brinde com fogo.
Seu pai estará aqui no final do mês. Com seu marido, devo acrescentar Sion anunciou, ao entrar na sala para o desjejum.
Ele não é meu marido, lembra-se? E eu não tenho pai Danae respondeu.
Sion sentou-se à mesa. Os dois ficaram em silêncio, enquanto um criado servia café ao marquês.
Não está nem um pouco curiosa? Sion perguntou depois que o criado se retirou.
Danae olhava para seu prato de frutas e para o belo pedaço de carne no prato de Sion.
Com um suspiro, pegou o garfo novamente.
Danae?
Não. Não me importo com o que os dois têm a dizer.
Eu avisei que você não conseguiria escapar.
Não foi isso que disse na semana passada. -
Por favor, pode me passar a geléia? Sion pediu. Danae morria de vontade de comer o mesmo desjejum que Sion.
Tinha vontade de enfiar-lhe uma fruta na boca e tomar seu prato.
Não sente fome, querida?
Danae levantou-se e jogou o guardanapo na mesa, dirigindo-se para a porta.
Sion tentou entender a atitude dela. Talvez estivesse mais preo­cupada com a visita do pai e do marido do que queria admitir. Por outro lado, vinha observando nos últimos meses que a aversão de Danae pela comida se agravara. A jovem comia cada vez menos. Algumas vezes nem descia para fazer suas refeições e, quando o fazia, era como ver um passarinho comendo, e ele até ficava um pouco constrangido quando faziam as refeições juntos.
Ela emagrecera demais, talvez para se assegurar de que Katherine estava morta e enterrada. Se não tomasse alguma providência, logo ela perderia o viço, como quando ficara inconsciente.
Mas não ia deixar de comer por causa dela. Depois que parou de beber, viu seu apetite aumentar, e pretendia continuar assim.
Katberine! — chamou a governanta.
— Sra. Turlow, quantas vezes terei que repetir? Agora meu nome é Danae. A senhora pode arruinar tudo. — Depois de uma pausa, percebeu que havia gritado. — Oh, desculpe-me, sra. Turlow. Não é sua culpa... Estou muito irritada. É Sion! Ele às vezes é irritante demais. Sempre com aquele olhar de supe­rioridade.
Na verdade, Danae tinha uma enorme vontade de perguntar por que o marquês comia tanto!
Sentindo dor de estômago por causa da fome, ela olhou para a governanta, esperando a resposta.
— Sim, Sion sempre foi irritante, mas não tão teimoso como a senhora.
Sabendo aonde aquela conversa ia dar, Danae olhou para a porta da sala de jantar, onde Sion deveria ainda estar se empanturrando. Não era justo. O marquês comia tanto e se mantinha sempre ma­ravilhoso... E ela não podia comer nada!
Danae olhou para a governanta e perguntou:
— Não sente cheiro de pãozinho de passas?
— Sim. Venha comigo e me ajude a tirar os pães do forno. Venha comer um pouco, com manteiga.
— E geléia? — Danae perguntou. Depois de alguns segundos, voltou a si. — Oh, sra. Turlow, como pode?
A governanta teve vontade de pegar Danae pela orelha, fazê-la sentar-se à mesa da cozinha e obrigá-la a comer.
Neste exato momento, Sion saiu da sala de jantar, sorrindo e alisando a barriga. Olhou para as duas mulheres.
— O que houve? — perguntou.
Danae subiu a escada correndo, sem nada responder.
— O que há com ela, sra. Turlow?
A mulher virou-se e foi para a cozinha. Duas portas bateram com força.
Danae o tratava como idiota. E aquela mania de passar fome o exasperava.
Foi para a biblioteca, e também bateu a porta.
Afinal, por que aquela garota o tirava do sério com tanta faci­lidade? Por que tinha de se importar se ela comia ou não? Não entraria no jogo dela. Que ficasse mais um dia sem comer, até desfalecer de fraqueza. Talvez assim voltasse a ter bom senso.
Sion olhou para a elegante mesa. O sol da manhã punha brilho nos talheres de prata, e uma leve brisa balançava a toalha de renda da mesa.
Danae estava parada no arco das portas que davam para o terraço.
— Bom-dia, minha querida. Senti sua falta no jantar de ontem.
— Eu não me senti bem, e decidi ficar na cama.
— Imaginei que não tivesse condições de vir, por isso exigi sua presença esta manhã. — Sion lhe deu o braço e a levou até a mesa. — Dessa vez não funcionará, minha querida. — Ele puxou a ca­deira para que Danae se sentasse.
— O que não funcionará?
— Ignorar-me. Estou de ótimo humor hoje, e não permitirei que me provoque. Olhe ao seu redor, Danae. O céu brilha, os pas­sarinhos cantam alegres, você tem minha agradável companhia e a comida ainda não esfriou. — Ele se curvou, pegou um botão de rosa do arranjo de flores que decorava a mesa, e acariciou o rosto de Danae com as pétalas. — O que mais poderia pedir?
Danae pegou o botão e o levou ao nariz para sentir seu aroma.
— Eu realmente o provoco?
— Ficará contente se eu disser que sim? Alegraria você se eu dissesse que encontrei cabelos brancos em minha cabeça esta ma­nhã? Ficarei velho antes do tempo, e por sua culpa, Danae. Você me confunde.
Ela sorriu timidamente.
— Sim — continuou Sion. — Você me provoca não me res­peita, porém não posso mandá-la embora. Creio que estamos pre­sos um ao outro. Para o melhor ou para o pior — disse, beijando-lhe a mão.
Danae sorriu e encostou o botão de rosa no rosto dele, antes de sentar-se.
— Não estou acostumada a provocar controvérsia. Contudo, acho estimulante poder me expressar com... — ela parou para pro­curar a palavra certa.
— Liberdade — o marquês completou gentil.
— Exatamente! Sempre tive que controlar meus sentimentos, e agora... É como voar! — Danae sorriu mais uma vez.
— Então, querida, sinta-se livre para expressar seus sentimentos e pensamentos. Só não deve me chutar, nem atirar coisas em mim. Em troca, pode falar o que quiser sem misericórdia. Negócio fe­chado? — Sion pegou a mão dela.
— Essas condições não são problema para mim. Não pretendo ser uma ameaça para você, mas... Não quero ser obrigada a nada. Por exemplo, não quero ser obrigada a comer se não tiver fome.
— Sinto muito, Danae, mas não posso simplesmente me sentar a sua frente e vê-la matar-se de fome devagar.
— Não tenho intenção de me matar!
Recostando-se na cadeira, Sion cruzou os braços sobre o peito e a estudou por um longo momento.
— Durante seu restabelecimento, houve ocasiões em que achei que você era a mulher mais linda que eu já havia visto. Contudo, já não posso mais dizer isso.
— Pelo menos eu não estou...
— Gorda?
— Deus, como você pode ser cruel!
— Não confunda crueldade com honestidade. Ir de um extremo ao outro não é resposta para os seus problemas. No final, arruinará sua saúde. Já destruiu sua beleza, a mesma beleza com que sonhou a vida toda. Meu Deus, mulher, olhe-se! Está patética, horrivelmen­te pálida, e seus ossos aparecem sob sua pele. Parece frágil demais. Tenho a impressão que sua pele se abrirá a qualquer momento. Lembra aquelas criaturas presas em uma cadeia durante anos. - Sion não pôde ver a expressão dos olhos de Danae, que ela manteve baixos, mas notou que seus lábios tremeram um pouco.
— O que devo fazer Sion? — Ela finalmente olhou para o marquês, como se fosse uma garotinha que perdera seu animal de estimação.
— Eu a apoiarei em tudo, Danae, mas nisso não.
— Mas eu engordei e...
— Não — ele a interrompeu. — Não engordou. Você ficava mais adorável a cada dia! Sua saúde restabelecida e sua força re­cuperada. Esteve inconsciente por mais de quatro meses, seu corpo sofreu meses de trauma. Às vezes queimava de febre, e quase morreu de desidratação! Estava desfigurada quando despertou. Quase como se encontra agora, devo acrescentar.
Sion queria ferir a vaidade dela e, aproveitando a chance nova­mente, falou com mais suavidade:
— Você é uma mulher desejável, Danae. Eu pensava em você todas as noites. Começou a adquirir orgulho e confiança. Era Danae, mas agora vejo Katherine voltar, deixando seus medos a domina­rem. Quem é você? A desejável e sedutora condessa ou a mulher solitária, que nunca conseguiu realizar um só desejo?
— Mas e se eu não parar de engordar?
— Deixe a natureza cuidar disso, Danae. Nunca a vi comer demais em uma refeição. Sempre foi cautelosa. Katherine não ti­nha nada e compensava sua frustração comendo de modo exage­rado. Ela não tinha alguém como eu para desafogar sua raiva e frustrações. Vê como você tem sorte? — Sion lhe sorriu.
— Sim, é verdade, tenho tido muita sorte desde que cheguei aqui. Você e a sra. Turlow são uma bênção para mim. — Danae olhou para o jardim, suspirou e voltou a fitá-lo. — Está bem, Sion. Como tenho permissão para abusar de você... verbalmente, claro, é justo que eu lhe dê alguma compensação. Mas, como você disse, o corpo deve se manter íntegro.
— Façamos um trato. Encomendei alguns cavalos de uma fa­zenda próxima daqui. Eles deverão chegar ao final da próxima semana. Uma pequena égua será sua; um presente meu, porém, com duas condições: primeiro, você terá que recuperar suas forças, e isso significa sentar-se à mesa nas refeições e se alimentar. Se­gundo, deverá provar que pode se manter sentada em um cavalo antes de ele ser seu.
— Mas eu não aprendi a montar...
— Sei disso. Eis o que proponho: para cada aula que eu lhe der, eu ganharei... um beijo. Mas o beijo será à minha maneira. Negócio fechado?
Danae considerou bastante boa a idéia de ter seu próprio cavalo e poder cavalgar em liberdade pelos campos. Um beijo para cada aula. Do jeito que ele quisesse. Correria perigo, mas valeria a pena.
— Aceito, com uma condição: durante o beijo deveremos per­manecer de pé.
— Está bem.
De repente, tudo parecia belo; seu futuro, a linda manhã, e a comida que Sion colocava em seu prato.
Por sua vez, Sion achou uma semana tempo demais. Talvez fosse bom mandar um bilhete a Rotherham para entregar os cava­los antes. Seria pena fazer Danae esperar.
Danae olhou outra mecha dos cabelos cair no seu colo. Pegou-a e observou a nova cor que a sra. Turlow conseguira com uma mistura de hena e outras ervas: uma tonalidade próxima do ruivo. Com essa mudança, não teve mais dúvidas de que se pareceria de fato com uma condessa italiana.
Mais uma razão para abençoar aquela senhora e suas incon­táveis habilidades.
Oh, esses cabelos vão ficar muito bonitos, querida! — afir­mou a governanta.
Danae esperava com grande ansiedade o resultado.
— Pronto... — murmurou a sra. Turlow. — Agora, vamos aos ferros.
Na lareira, cinco bastões finos de ferro estavam aquecidos. Contudo, Danae assustou-se, e quase desistiu.
— Eu confio plenamente na senhora, mas não acha que... Parou de falar quando sentiu o ferro encostar em uma mecha de seus cabelos, com o som característico de algo que ferve.
Oh, por favor, sra. Turlow, eu realmente...
Outra mecha "fervendo" interrompeu-a mais uma vez.
Quando a governanta foi até a lareira para pegar outro ferro aquecido, Danae teve vontade de fugir.
Depois de terminar o trabalho, a sra. Turlow afastou-se um pouco, a fim de avaliar o que fizera.
— Ah... trata-se de uma obra-prima! — a mulher exclamou, sorrindo. — Está adorável.
Danae não acreditou na imagem que via diante do espelho. Seus belos cabelos estavam cacheados, brilhantes e com uma linda cor ruiva. Teve até receio de tocar neles. Seus olhos e sua pele foram realçados, e sem os óculos de sua mãe, Danae se transformara em uma mulher muito mais bonita.
Era agora uma verdadeira lady, igual às mulheres aristocráticas que tanto admirava. Pela primeira vez em sua vida, Danae se olhou no espelho e gostou do que viu.
Camden, você acabou com Katherine, mas não tocará em mim, ela pensou, admirando sua nova imagem.
— A senhora é realmente uma mestra, sra. Turlow. Deveria trabalhar nos salões mais elegantes de Londres, em vez de perder seu tempo aqui. Muito obrigada!
— Ora, querida. Para que ir a Londres se tenho aqui um anjo para cuidar?
Sim, Danae podia muito bem se fazer passar por uma viúva italiana que não pensara duas vezes antes de se tornar amante de um lorde inglês. Pensar em Sion como seu amante a fez corar.
— Bem, ainda não acabamos — a governanta avisou. — Feche os olhos, querida.
A jovem obedeceu e, depois de alguns minutos, a sra. Turlow deixou que ela se olhasse novamente no espelho. A transformação foi grande.
— Agora, os lábios. Entreabra os lábios.
Entreabrir os lábios? Como, sra. Turlow?
— Será que terei de ensinar isso também? Até as coisas mais básicas? — perguntou Sion, encostado no umbral da porta.
O marquês se aproximou e ergueu o queixo de Danae, beijando de leve seus lábios.
Danae ficou estarrecida. Aquele simples beijo lhe despertara sensações que nunca havia experimentado.
— Viu, querida? É assim que entreabrimos os lábios. Você é uma boa aluna... — E o marquês a beijou mais uma vez, um pouco mais demoradamente.
— Obrigada, milorde — ela disse com frieza. — O senhor tem talento para ensinar.
— Serei sempre seu humilde servo, minha querida. E sempre satisfarei seus caprichos. Fez um ótimo trabalho, sra. Turlow. — Sion acrescentou, sorrindo, sem tirar os olhos de Danae.
O reflexo da governanta no espelho fez Sion voltar à realidade. Ele limpou a garganta e se afastou.
— Danae, eu agradeceria se passasse alguns minutos na biblio­teca. Para sua conveniência, é claro.
A jovem apenas meneou a cabeça afirmativamente. O que mais queria no momento era que o marquês saísse do quarto. Ao chegar à porta, Sion parou.
— Os lábios dela são perfeitos, sra. Turlow. — comentou ele. — Acho que não será necessário pintá-los.
— Milorde? — Danae o chamou.
— Sim, minha querida?
— Você me deu uma informação, não uma aula; mesmo assim, teve sua compensação. Deixe-me dizer o que penso dessa sua ati­tude. — E atirou uma latinha de talco em Sion.
A lata bateu na parede, e seu conteúdo caiu sobre Sion, que ficou coberto de talco.
Depois de alguns segundos, Danae e a governanta explodiram em risos.
Sion olhou-se de alto a baixo. Seu estado era lastimável. Su­bitamente, porém, deu-se conta de uma coisa muito importante: Danae estava rindo! E seus olhos exibiam um brilho especial...
Depois de alguns minutos, já séria, Danae tornou a fitá-lo.
— Alguma coisa está errada? Sei que não devia ter atirado a lata de talco, mas era o que estava mais próximo. Desculpe-me.
— Não se desculpe, Danae, foi nosso trato. Você atirou apenas um objeto, e eu lhe dei dois beijos.
Danae olhou para a cesta, pegou a escova de cabelo e a atirou contra ele, que a pegou no ar.
— Estamos quites, agora? Dois beijos, dois objetos. Ela se curvou em uma elegante mesura.
Sion se retirou, deixando suas pegadas no talco espalhadas pe­lo chão.
Pela quarta vez, Danae bateu na porta da biblioteca com impa­ciência.
Como não recebeu resposta, deu um passo para trás, apoiou as mãos na cintura e blasfemou:
— Onde está a porcaria desse homem?
— Entre, Danae, estou aqui — Sion murmurou do outro lado da porta.
Irritada, Danae contraiu os lábios. Devia ser outro jogo dele. Talvez uma vingança pelo episódio do talco. Com o queixo ergui­do, abriu a porta e entrou.
— Danae, quando eu peço sua presença na porcaria da minha biblioteca, eu não espero que você fique parada na porcaria do corredor, batendo na porcaria da porta.
Ela não pôde deixar de rir ao sentar-se.
— O que está fazendo? — perguntou ao ver pilhas de jornais velhos sobre a escrivaninha.
Sem responder, o marquês pegou um jornal amarelado pelo tempo e rasgado.
— Ouça isso. Este jornal é de 18 de março de 1882. Quando Sion acabou de ler o artigo, que falava sobre os direitos
da mulher, olhou para Danae com atenção e sorriu.
— Você será uma viúva muito rica, condessa.
— Acha isso possível?
— O parlamento diz que é. — Sion apontou para o jornal. — Teremos que fazer um testamento. Você mesma me informou que sua mãe lhe deixou todas as suas propriedades e seu dinheiro. Essas propriedades foram adquiridas antes do seu... — ele hesitou. — Antes do casamento de Katherine com Halsingham. Portanto, por lei, esses bens não estão incluídos nos bens adquiridos depois do casamento. Para ser mais claro, Halsingham não tem direito de reivindicar nada de Katherine. Por sua vez, Katherine pode deixar seus bens para quem desejar. E seu último desejo antes de morrer foi doar tudo a Danae Suriano, a contessa di Sala, em gratidão por sua ajuda e atenção, durante seus longos e dolorosos meses de doença. Foi muito inteligente de sua parte não ter assinado nenhum documento em relação a suas propriedades.
Jassy não permitiu que eu assinasse nada.
— Ela foi uma verdadeira amiga.
Danae suspirou. Se isso fosse possível, ficaria rica e inde­pendente, e Halsingham não teria nenhum direito sobre seus bens. Sorriu, satisfeita. Como a justiça podia ser poética!
— E então? — Sion perguntou.
— Você não conhece a ambição de Halsingham. Ele contestará o testamento e não se importará com o escândalo. Livrar-se de Camden é sua prioridade. E a última coisa que eu quero é noto­riedade. Ele lutará, e nenhum de nós dois gostaria de um litígio no tribunal. E se Danae for investigada? — Ela jogou o jornal de volta à escrivaninha.
Não posso me arriscar, Sion. As jóias de mamãe serão suficientes. A ambição poderá me levar à perdição.
— Esta é apenas uma emenda a uma lei já existente. Deve ter suas falhas, mas geralmente é eficiente. Entretanto, se Halsingham nos causar problemas, contamos com um trunfo poderoso.
— Que trunfo?
— Meu Deus, como você é inocente!
— Do que está falando?
— Você é virgem.
— Sim, sou. Mas e daí?
— Querida, eu pensei que você fosse um pouco mais inteligente.
— Não me insulte — ela declarou, pondo-se de pé.
— Então raciocine! — Sion também se levantou.
— O caso é que não sei aonde você quer chegar!
— Minha cara, tecnicamente você não está casada.
— Disso eu sei.
Sion ficou olhando para a jovem intensamente.
— Entendi. — Danae ergueu as mãos. — Não vou mais inter­rompê-lo.
— Bem, como eu dizia... O casamento de Katherine não foi consumado. Se esse fato vier a público, Halsingham ficará devas­tado. E Camden certamente o levará à justiça por quebra de con­trato. Portanto, a última coisa que Halsingham desejaria é que Camden soubesse de tudo.
— Presumo que se refira a chantagem.
— Isso a incomoda?
— Não! Halsingham teme Camden mais do que Katherine te­mia. E eu não me importo com ele.
— O casamento não foi consumado. Como Katherine, você pode ir a Londres e pedir a anulação.
— E enfrentar Camden novamente? Não, de jeito nenhum. Mas, com a morte de Katherine, como vai provar sua virgindade, Sion?
— Posso obter um atestado médico.
— Conhece um médico que faria isso?
— Sim.
— Tem consciência de que se envolverá nessa fraude?
— Sim, é claro. E também tenho consciência de que sua causa é justa; caso contrário, eu jamais faria isso. — Sion abriu uma gaveta, e dela tirou uma caneta e uma folha de papel. — Oh, mais uma coisa: como vai exigir seus direitos da Itália, será bom ter alguém que corrobore sua história, para o caso de Camden ou Halsingham resolver investigar. Tenho um primo no consulado de Nápoles que, acredito, não se importará em dar a você credenciais, se for interrogado sobre uma certa cotessa di Sala. Escreverei para ele hoje. Concorda?
— Sim.
— Bem, comecemos então. "Eu, Katherine Beatrice Camden-Carey, viscondessa Halsingham, venho nesta data...".
Danae a custo conteve as lágrimas, e a voz de Sion foi ficando longe e fraca na sua mente. Nunca ninguém fizera nada por ela. Mesmo assim, estava preocupada. Não com sua própria situação, pois nada tinha a perder, mas com Sion
— Bem... — Sion pôs a caneta no tinteiro e olhou para Danae. —- Você aprova?
— Parece maravilhoso.
— Não ouviu uma só palavra, não é?
— Não.
— É preciso que leia com atenção e assine no final da folha. — Sion lhe entregou o papel. — Não esqueça de que assinou isso no seu leito de morte. Sua letra não poderá ser muito firme. Em seguida, levarei o documento para um magistrado autenticar.
— Isso será difícil?
— Não. Ele me deve favores e não causará nenhum problema. Danae molhou a caneta no tinteiro.
— É melhor que leia antes de assinar.
— Por quê? Confio em você. E depois, não tenho escolha. — Ela lhe sorriu. — Você confia em mim? — perguntou, antes de assinar o documento.
Sion olhou para o brilho que o sol punha nos cabelos femininos. Realmente a transformação fora enorme. Todos os dias Danae apresentava uma modificação: a maneira de caminhar, o tom de voz... Com algumas roupas novas, ficaria perfeita. Teria saudades de Katherine, que o havia transformado em outro homem.
Consciente do silêncio que se fizera na biblioteca, Sion olhou para Danae, que acabara de assinar o documento e o olhava com atenção.
— Você está bem? — ela perguntou.
— Sim. Apenas reminiscências.
Tory?
— Katherine. Nunca a esquecerei.
— Nem eu — Danae sussurrou, com os olhos marejados de lágrimas.
Os dois se deram as mãos sobre a mesa.
— Agora, somos apenas nós dois, Danae.
— E a sra. Turlow.
— É verdade. Como pude esquecer?

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