quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Enquanto você dormia parte 8


Uma bela tarde, a sra. Turlow convidou Danae para que a acom­panhasse até o sótão. A governanta, então, lhe abriu um grande baú onde havia roupas maravilhosas. Juntas examinaram peça por peça: trajes de gala, trajes informais, trajes para o dia e para a noite. Tudo muito fino e elegante: rendas, cetim, veludo, tafetá, laços e bordados.
A governanta separava as roupas e as jogava sobre os largos ombros.
Subitamente, Danae parou e balançou a cabeça, chamando a atenção da criada.
— O que foi? — perguntou a velha senhora.
— Tudo é muito bonito, maravilhoso, mas... Eram roupas da marquesa. Não tenho o direito de me apossar delas. Sion não apro­varia.
— Ele nem sabe que existem.
— Mesmo assim. Não tenho esse direito. Seria desrespeitoso.
— Pegue ao menos um! — A governanta guardou os trajes novamente e fechou o baú, resmungando. — Tome este empres­tado.
— Sra. Turlow, onde estão os retratos?
— Devem estar aí, em algum canto.
Danae procurou e encontrou o retrato de Tory. Ela estava sen­tada em uma cadeira, e Sion, atrás da esposa, apoiava uma das mãos em seu ombro. Os dois sorriam.
Tory não era propriamente uma mulher bela, mas seu olhar irradiava simpatia, e ela era como que circundada por uma aura de amor. Seria muito fácil confiar naquela mulher.
— Deviam se amar muito — Danae afirmou, com uma ponta de inveja.
— Sim, tratava-se de uma mulher muito boa.
Prometo cuidar de Sion para você, Danae pensou, olhando para o rosto sorridente de Tory. E você encontrará paz. Subitamente, ela tomou uma decisão.
— Coloque esse retrato de volta no lugar que ele ocupava.
— Querida, acho que não é uma boa idéia.
— Pode fazê-lo, eu assumo a responsabilidade.
— Não é comigo que eu me preocupo.
— Então, tudo bem. Não se preocupe mais.
Sion se barbeava quando ouviu um barulho estranho vindo do andar inferior.
Tirou a espuma de sabão do rosto, abotoou a camisa e desceu para averiguar do que se tratava. Quando entrou na biblioteca, viu o retrato de Tory pendurado sobre a lareira. Surpreso, ruborizado, os olhos congestionados, perguntou à governanta:
— O que significa isso? Quem autorizou?
A sra. Turlow nada disse, mas ele sabia a resposta.
— Onde está Danae?
A velha senhora olhou em direção ao jardim.
— Obrigado — Sion agradeceu, sarcástico. — E tire o retrato daquela parede. Agora!
No jardim, Sion, furioso, procurava por Danae.
Como ela ousara trazer à tona seu passado? Amara muito Tory, mas sua esposa se fora e ele não queria mais mergulhar na deca­dência que vivera depois que a perdeu. Tinha uma nova vida agora.
Logo avistou-a conversando animadamente com o novo jardi­neiro. Não podia acreditar.
Lá estava a bela senhorita, os lindos cabelos ondulados, o sol pondo reflexos dourados nas mechas ruivas. Seu rosto parecia ale­gre, e seu belo corpo moldava-se de modo perfeito por um dos vestidos... de Tory!
Sion fechou os olhos. Lembrava-se daquele vestido: fora entre­gue depois da morte da esposa.
— Milorde — Danae murmurou, fitando-o com os olhos cor de âmbar, brilhantes.
— Você enlouqueceu? — ele perguntou, irado.
— Eu fiz alguma coisa?
— E ainda tem coragem de perguntar? Foi uma péssima idéia pendurar o retrato de Tory na minha biblioteca, mas isso... — Ele apontou para o vestido que ela usava. — Que audácia usar as roupas dela! Quem autorizou?
Com esforço, Danae reprimiu sua própria raiva, culpa e mágoa. Estava claro demais que vê-la usando um dos preciosos vestidos de Tory era insuportável ao marquês.
Sentiu que mal conseguia respirar, e a velha insegurança re­tornou.
— Perdoe-me! Achei que poderia tomar ao menos esse empréstimo. Mas corrigirei meu erro o quanto antes: tirarei o traje ime­diatamente. É óbvio que julguei nossa amizade de maneira equi­vocada.
Danae tentou se retirar, mas ele bloqueou-lhe a passagem.
— Não seja ridícula. É claro que somos amigos!
Sion parou e contou até dez para se acalmar. E tentou falar em um tom de voz mais ameno:
Não há necessidade de usar os vestidos de Tory. Se tivesse pedido, saberia que eu já chamei uma costureira para vir aqui tirar suas medidas.
Danae ficou lívida. Quanta generosidade! Há meses usava as roupas grandes da Sra. Turlow, e Sion agora havia chamado a cos­tureira sem nem avisá-la. Era um homem arrogante! Nunca mais iria querer a misericórdia de um homem para vesti-la, alimentá-la ou lhe dar ordens.
— Perdoe-me. Nunca mais usarei as preciosidades de sua mu­lher. Não quis execrar a memória de Tory! — Danae disse, arran­cando os botões de pérola do vestido e os atirando aos pés dele.
Suas roupas íntimas de cambraia ficaram expostas, e Sion fra­quejou ao ver uma parte dos alvos seios expostos. Lembrou-se de quando a banhava, e sentiu grande desejo de tocá-la.
Vendo-o impassível, Danae não se conteve: livrou-se do vestido e o atirou no rosto do marquês.
— Aí está! —ela gritou. — Com meus cumprimentos! Ponha-o em um santuário!
Com o rosto coberto pelo vestido, Sion ouviu os passos da jo­vem se afastando pelo caminho de pedras. Ela vestia apenas as roupas de baixo e o espartilho, e seu corpo maravilhoso o deixou enlouquecido.
Correu e conseguiu agarrá-la, mas Danae virou-se e lhe aplicou uma bofetada.
— Então é isso? Quer brigar?
Percebendo seu erro tarde demais, Danae não conseguiu impe­dir que ele a pegasse e a pusesse sobre o ombro. Gritou, mas Sion caminhou em direção ao quarto dela, impassível, ignorando a go­vernanta, que a tudo assistia boquiaberta. Quando chegou ao quar­to, jogou-a na cama sem muita delicadeza.
— Já fez o que desejava, milorde. Agora, por favor, saia daqui!
— Danae, Danae, o que farei com você? Ainda não aprendeu nada? Bem, acho que essa é uma boa oportunidade para ensinar-lhe como se reconciliar com um amante.
Assustada com as palavras, ela levantou-se da cama para tentar fugir, porém Sion a agarrou, colando seu corpo ao dela.
Ofegante, Danae sabia que tinha de se afastar dele a qualquer custo, mas ficou paralisada por sensações até então desconhecidas.
— Por favor... — ela sussurrou.
— Pretende pedir-me algo, Danae?
— Não sei. Não consigo pensar direito.
Seus lábios estavam muito próximos, e a atração entre os dois era imensa.
— Posso deduzir que é isso que você quer? o marquês per­guntou, um segundo antes de beijá-la com paixão.
Sion sentia os mamilos de Danae túrgidos pelo desejo, e não resistiu a tocá-los. Empurrou-a de volta à cama. Deitado sobre ela, afastou-lhe as pernas com os joelhos. Danae gemia, o que o deixou ainda mais enlouquecido.
— Não! — ela conseguiu murmurar, ao sentir que os dedos ágeis do marquês exploravam seu corpo, tocando-a em sua parte mais íntima. Sion agora exigia sua entrega total, e Danae, consu­mida pela paixão, viu sua resistência diminuir cada vez mais.
Entretanto, no auge do desejo, ela ouviu a voz de Jassy recriminando-a. Pretendia tornar-se uma daquelas mulheres decaídas sobre as quais Jassy sempre a alertara?
No entanto Sion continuava a acariciá-la e seu toque a enlou­quecia de prazer. Sem poder mais se conter, Danae foi dominada de tremores, e experimentou uma sensação que nunca imaginara. Mesmo gritando de prazer, empurrou Sion até conseguir se livrar, saindo de debaixo dele, e ficou de pé ao lado da cama. O corpo do marquês tremia, e seu peito arfava.
Vendo a confusão estampada no olhar de Sion, sentiu-se uma mulher imoral. Deixara que a tocasse em lugares proibidos. Cho­rando, humilhada, Danae escondeu o rosto com as mãos.
Ainda tentando entender o que acontecera, Sion permanecia ajoelhado no meio da cama, fitando-a, insatisfeito e já constran­gido. Precisava se livrar da agonia de um celibato de quatro anos. Mas não queria outra mulher: queria Danae.
— Desculpe-me, querida. Eu não pretendia ir tão longe.
— Por favor, vá embora! — ela sussurrou, desejando, porém, que Sion ficasse.
Com um suspiro, ele a fitou, sentindo um grande desejo de confortá-la, de tentar recuperar sua confiança. Mas achou que aquele momento era inadequado e caminhou em direção à porta do quarto, destrancando-a.
Danae teve vontade de chamá-lo de volta, mas não conseguiu.
Naquela noite, na sala de jantar, Danae mal olhou para lorde Dereham, enquanto os criados serviam a refeição.
Pelo menos, Sion teve a satisfação de vê-la se alimentar de modo adequado.
— Minha querida, sei que não quer conversar comigo, mas... quantas vezes terei que pedir desculpas? O que deseja dessa vez? Sangue? — ele disse, depois que os criados saíram da sala.
— Até que é uma idéia interessante!
Com impaciência, Sion enrolou as mangas da camisa e estendeu os braços sobre a mesa.
— Pode picar qualquer veia.
— Quem falou em picar?
Inesperadamente, ela fincou os dentes alvos no pulso de Sion, que, assustado, pôs-se de pé, enquanto ela fingia limpar o canto da boca com o guardanapo.
— Delicioso! — murmurou em tom de graça.
Sion viu-se tentado a morder o pescoço de Danae, mas logo se conteve.
— Desculpe-me, querida. Deus, preciso exercitar meu autocon­trole! Saiba que eu jamais a machucaria. Não quis desrespeitá-la. Prometo que nunca mais acontecerá.
— Não precisa se desculpar.
— Como assim? — o marquês perguntou, irritado.
— Não tem importância.
— É claro que tem! Tudo em relação a você importa para mim — ele afirmou, segurando-a pelos ombros. — Diga-me o que fiz para merecer a sua frieza.
— Por favor, milorde, deixe-me ir.
— Não enquanto não me responder.
Danae permaneceu imóvel e Sion a largou, afastando-se.
— Está me associando a Camden, é isso?
Ela não respondeu, apenas encolheu os ombros.
Desanimado, ele voltou ao seu lugar à mesa, sem saber o que mais poderia fazer ou dizer.
Lutando contra o impulso de se aproximar do marquês, Danae engoliu em seco e se conteve.
— Já devolvi o vestido da marquesa ao lugar de onde o tirei. Boa-noite, milorde.
Quando estava próxima da porta ouviu-o dizer:
— Recebi um bilhete da costureira. A mulher deve estar de volta à cidade amanhã, e poderá atendê-la na quinta-feira.
Danae esperou que Sion dissesse mais alguma coisa, mas isso não aconteceu. Então, meneou a cabeça e saiu da sala de jantar.

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