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CApitulo 10 Enquanto você dormia






Mais uma vez, uma brisa forte despenteou os cabelos de Sion, enquanto os cabelos de Danae permaneciam no lugar. Ele passou a mão pela nuca, onde os pêlos haviam se arrepiado.
— Jassy fez isso, não fez? — Sion perguntou, aturdido. Danae riu.
— Era só o que me faltava! Vamos voltar para casa. Estou faminto.
No meio da noite, Sion acordou gritando, apavorado com o pesadelo que tivera. Havia um corpo caído no chão, de bruços, ensangüentado. Achou que fosse Tory. Correndo, chegou perto da esposa e a virou. Mas não era Tory. Era Danae!
Aturdido, ele esfregou as têmporas, querendo apagar as lem­branças. Nunca havia sonhado com Danae.
Levantou-se e vestiu um par de calças de cambraia, sem se preocupar em abotoá-la totalmente, e correu para a biblioteca. Pre­cisava beber alguma coisa.
Um drinque não me fará mal. Apenas me fará dormir. – Pensou.
Pegou a garrafa e um copo para se servir.
— Você precisa mesmo disso? — disse alguém quando Sion já levava o copo à boca.
Parada no vão da porta, Danae segurava o candeeiro que ilu­minava sua silhueta.
Os dois se olharam e, pela primeira vez naquele estranho rela­cionamento não sabiam como agir.
Devagar, Danae se aproximou do marquês e passou o dedo pelo pescoço suado, e depois pelo peito nu.
Desceu o dedo pela barriga e chegou ao umbigo dele. Sion fechou os olhos, gemendo.
— Vê? Não é de bebida que você precisa — Danae sussurrou.
— Você é tão bela! Nunca vi uma mulher assim tão linda. Sion fechou os olhos novamente, e quando os abriu não viu mais ninguém.

Veloz, a carruagem transpôs uma curva, e lorde Camden avistou o solar Dereham. Incrustada em um espesso círculo de colinas arborizadas, a casa de trezentos anos parecia quase perdida na luxuriante vegetação. Era de fato uma bela vista.
Então essa era a casa de Sion Sinclair, o sexto marquês de Dereham. Camden se lembrava muito bem do arrogante cava­lheiro. Haviam se encontrado dez anos atrás, e a antipatia fora imediata e recíproca.
Camden sorriu ao lembrar-se do alto e elegante cavalheiro na Casa dos Lordes, respondendo pela acusação de assassinato. Havia sido inocentado, mas Camden teria gostado de vê-lo pendurado pelo pescoço em uma forca.
A carruagem parou, e Camden desceu pisando com cuidado nos degraus a frente da porta do veículo. O lugar estava repleto de jardins muito bem cuidados. Nada fazia justiça aos rumores de que Dereham se afogava no álcool e não cuidava da propriedade. Que pena! A imagem do arrogante Dereham mergulhado no próprio vômito sempre fora especial para Camden.
Apoiado na bengala dourada, Camden olhou para seu genro, que não escondia o ar de enfado; naturalmente ficara contrariado por ter sido afastado das noitadas de Londres.
Diziam que seu inútil genro espalhava sua semente por toda Londres, mas fora incapaz de engravidar sua filha. O estúpido janota nem se dera conta de que, com a morte de Katherine, o contrato entre os dois cessara.
Antes de ouvir vozes masculinas na entrada do solar, Sion já sabia, pela tensão de Danae à janela, que os dois homens haviam chegado.
Tem certeza de que quer dar continuidade ao nosso plano? ele perguntou, suavemente.
Passei muitos anos com medo desse homem. Pretendo con­duzir minha vida à minha maneira. Danae sorriu timidamente para ele.
Você está linda. Parece realmente com uma condessa italiana! Os dois homens foram encaminhados para a biblioteca, onde Sion e Danae os encontraram. Sion logo viu o rapaz alto e bonito, elegantemente vestido e com uma postura de pavão.
Forçando um sorriso, cumprimentou o marido de Katherine, e em seguida o pai dela.
Olhou mais uma vez para o marido de Katherine, e sentiu um forte ódio ao vê-lo medir Danae de alto a baixo. Teve vontade de surrá-lo ali mesmo. Mas se conteve.
Cavalheiros, sejam bem-vindos a Dereham e por favor se acomodem. Sinto que esse encontro aconteça em circunstâncias tão tristes Sion disse, notando que nenhum dos dois homens usava uma faixa preta de luto nas mangas do casaco.
O senhor diz que minha filha morreu.
Danae sentiu um tremor percorrer seu corpo. Não sabia se de medo ou ódio.
Por favor, sentem-se.
O janota não deixava de acompanhar Danae com os olhos. Ela se aproximou e sentou-se ao lado de Sion, que pegou-lhe a mão, exibindo uma intimidade de vários anos.
Esta senhora é a contessa di Sala.
Halsingham beijou-lhe a mão, mas Danae manteve-se fria, exa­tamente como queria parecer.
Acho difícil acreditar que minha filha passou tantos meses aqui sem que ninguém soubesse quem ela era declarou.
Foi um fato muito triste. A contessa e eu voltávamos de uma viagem a Paris quando nos deparamos com a carruagem tombada. A tempestade estragou as estradas, o pobre cocheiro foi atingido por um raio, e a companheira de sua filha jazia sem vida sob os destroços da carruagem. Sua filha estava muito doente quando a encontramos. Ficou quase submersa naquela água gelada.
Camden parecia irritado, e Halsingham, sentado de modo dis­plicente, não perdia Danae de vista.
Sion continuou, a voz compungida, mostrando piedade pelo destino daquelas pessoas.
Durante semanas sua filha teve febre, o que aparentemente lhe causou perda de memória, segundo o médico que a atendeu. Não nos surpreendeu o fato de a infecção ter atingido seus pul­mões. Achamos bastante estranho que ninguém a procurasse. Na­turalmente, não imaginamos que ela fosse uma nobre, tendo em vista o precário estado da carruagem em que viajavam e os trapos que vestia. Eu não tinha conhecimento de que o senhor atravessava um período crítico, e que sua família tinha de se apresentar tão malvestida.
Contente, Sion viu o olhar frio de Camden mostrar um vislum­bre de ódio.
Depois de um longo momento, ele respondeu:
Voltei de viagem há apenas um mês. Então o marido de Katherine me informou que minha filha nunca havia chegado ao seu destino.
Como eu podia saber que o senhor a mandaria para Londres? perguntou o janota, com uma voz monótona.
-- Pelo que entendi, o acidente aconteceu há cerca de dez meses e só notaram o desaparecimento da jovem faz um mês? Acho isso quase... criminoso, cavalheiros. Sion mal podia conter-se de indignação.
Presumi que minha filha havia fugido, por isso não entrei em contato com a Yard. Ela teria que voltar. Não conseguiria com­prar a comida que ingeria o dia inteiro. Seria apenas uma questão de tempo. Sempre foi ingrata e difícil de se lidar.
Mas signore Danae falou com sotaque italiano. Não podia estar mais errado. Pobre Katherine! Sua filha se tornou mi­nha amiga quando eu cuidei dela. Fizemos todo o possível, mas... O senhor deve estar arrasado, não é mesmo?
Sion escondeu um sorriso. Como Danae podia ser tão fingida?
— Desconsolados — Halsingham disse, olhando fixamente para os lábios dela. — Katherine era uma esposa muito dedicada.
Camden mexeu-se na cadeira e bufou.
— A contessa cuidou de Katherine com esmero, todos esses meses. Na verdade, as duas ficaram muito íntimas. Não foi sur­presa quando Katherine pediu os serviços de um advogado. Sabia que não ia viver muito tempo. — Sion sorriu para sua suposta amante. — Em gratidão por todo esse amor e atenção, Katherine decidiu deixar seus bens para a contessa.
O silêncio que se seguiu a essas palavras foi absoluto.
— Eu tentei falar sobre essa decisione, mas... — Danae enco­lheu os ombros. — Ela foi tão insistente. Katherine afirmou que a herança era da sua mãe. A garota queria que fosse para alguém que meritévole... — vendo a expressão dura de Camden, acrescen­tou: — scusami, merecesse. Sim, foi isso que minha querida amiga me disse.
Alguns minutos depois, Camden se mexeu na cadeira.
— Eu pedirei aos meus advogados que examinem este... docu­mento. E o senhor se importaria se eu mandasse um oficial da polícia para averiguar essa história? Afinal de contas, agora são... Duas jovens mulheres mortas sob seus cuidados.
Danae ergueu-se e enfrentou Camden.
— Signore, quem cuidou de Katherine fui eu. Sion não fez nada. Eu, a viúva do Conte di Sala, eu! O senhor insultou a mais poderosa famiglia di Napoli.
Sion estava admirado com a performance latina de Danae. Onde aprendera aquilo? Certamente não com Jassy.
— Como podem ver — interveio Sion —, a contessa detesta ser insultada. É um traço latino, creio eu. A família do seu falecido marido também era poderosa, e, por muito menos, cadáveres foram encontrados boiando em um rio.
— Está me ameaçando, Dereham? — Camden perguntou, mui­to sério.
— De maneira nenhuma, Camden. Contudo, não o aconselharia a viajar para a Itália. Mas, voltando ao seu assunto, é claro que pode falar com seus advogados. Eu nunca pensaria em interferir.
Sion continuava amável, mas não previra uma acusação de as­sassinato.
— O senhor disse que minha filha morreu de tuberculose, mas Katherine era uma moça gorda e forte. É difícil de acreditar.
Sion não mais suportou esconder a antipatia que sentia por aque­le homem. Recostando-se na cadeira, olhou firme para Camden.
— Agora posso entender por que Katherine o odiava tanto, como também ao seu... marido comprado. Não pense que pode vir a minha casa e insultar minha companheira, ou insultar-me. E além de tudo, caçoar de Katherine. Como vê, conheço bem vocês dois.
Danae e Halsingham permaneceram imóveis em suas cadeiras diante da cena que se descortinara.
Mas, pela primeira vez, não viam Camden reagir diante de uma provocação.
Sion fizera averiguações, e sabia que Halsingham tinha muitas dívidas de jogo; certamente estava apavorado, sem saber como saldá-las.
Falando diretamente para Danae, Halsingham tentava explicar a situação, como se ela fosse uma criança.
— E claro que a senhora entende que Katherine não tinha o direito de dispor de seus bens dessa maneira. Como marido de­la, eu...
— Obviamente você desconhece as leis que passaram no Parla­mento, que agora dão à mulher casada o direito de dispor de seus bens, adquiridos fora do casamento, da maneira como desejar. Como Katherine herdou suas propriedades quinze anos antes de se casar, ela terá esse direito garantido pela lei — explicou Sion ao desinformado marido. — Como o senhor e o pai dela nunca lhe proporcionaram um só momento de felicidade e gentileza, e sua querida companheira morreu tragicamente no acidente, ela desejou deixar tudo que possuía à contessa em gratidão por sua dedicação.
Mas acredito que teria deixado seus bens a qualquer mendigo de rua, pois odiava vocês dois.
— O senhor foi longe demais! — Camden disse, com os dentes cerrados.
— Eu nem mesmo comecei.
— Essa discussão não termina aqui. — Camden levantou-se. — Nós nos veremos no tribunal.
— Então, até lá.
Sion e Danae permaneceram sentados, insulto que não passou despercebido a Camden e ao genro.
— Eu imaginava que já tivesse visto muita coisa no tribunal, Dereham.
— Nem tanto. De fato, espero ansiosamente encontrá-lo lá. Como vê, Katherine não estava só neste mundo, como o senhor gostaria.
Zangados e aborrecidos, os dois finalmente se foram.
— Graças a Deus, acabou. O que achou?
— Você se comportou de maneira magnífica, Danae! — Sion beijou-lhe a mão.
Nervosa, ela foi até a janela a tempo de ver a carruagem dos dois homens se perder em uma curva da estrada.
-- Será que nossa idéia foi mesmo boa?
— Tarde demais para um ataque de remorso! — Sion observou, rindo.
— Remorso! Eu nada fiz para me sentir culpada.
— Ah, nada... A não ser mentir, enganar e burlar a lei.
— Não enganei ninguém! O dinheiro é meu! Aquele homem é que me enganou, a vida toda! Nunca me dedicou o menor cuidado, nem teve nenhuma consideração para comigo; caso contrário, eu jamais faria isso. Quanto a Halsingham, não sinto nada por ele. Afinal de contas, ele nada mais é do que outro homem infiel.
— Ora, não exagere! Nem todos os maridos são como ele.
— Você foi fiel a sua esposa?
Sion fitou-a demoradamente e virou-se.
— Sion, desculpe-me. Ainda não me acostumei a brigar. Às vezes falo sem pensar. Sinto muito — Danae sussurrou.

Comentários

  1. Até que enfim voltou a postar essa fic, rsrs. Vê se agora volta a postá-la com mais frequencia, sempre venho aqui e fico decepcionada por não encontrar nenhum capitulo atualizado. Essa estória é bem intrigante e espero chegar ao fim dela vice dona Annie!! rsrs. Obrigada por postar, antes tarde do que nunca né, rsrs. Bjoss

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