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Enquanto você dormia parte 11


Londres! Danae não podia acreditar que finalmente se encon­trava em Londres.
Com os olhos bem abertos, levou o lenço de renda ao nariz, sem deixar de olhar tudo através da janela da carruagem.
— Londres foi renovada em muitas coisas, mas o ar ainda é o mesmo — Sion informou, sorrindo.
Danae não afastava os olhos da janela. Havia tanto a ver! Con­tudo, o que mais despertava sua atenção era o aglomerado de pes­soas. Nunca vira nada igual.
— Não se preocupe, querida, você verá tudo.
Ela ia responder, quando um barulho chamou sua atenção.
— É um trem?
— Você nunca viu um trem? — Sion perguntou, admirado, uma vez que toda a Inglaterra era cortada por estradas de ferro.
— Não. Quero ver.
— Recomendo que feche a janela. Estamos perto da Estação Paddington, e asseguro-lhe de que o ar é insuportável.
— Por favor, Sion.
— Está bem, mas não me culpe...
Oh, está tão perto! E como é grande!
Sion recostou-se no banco da carruagem e esperou o que estava por vir.
Danae tossiu, mas continuou olhando tudo. Um pouco depois, a tosse agravou-se, e Sion entregou nova­mente a ela o lenço que havia caído no chão. E fechou a janela.
— O ar é sempre terrível assim? — Danae perguntou.
— Depende do lugar em que se está. Como disse, estamos muito perto da Estação Paddington, onde o barulho e o ar são piores. São lugares pobres e populosos. É difícil acreditar que você nunca esteve em Londres, que nunca tenha visto um trem.
— Camden lhe pareceu um homem preocupado com outras pessoas, especialmente com uma filha que detestava?
— E quando ele viajava?
— Nunca me deixaram sair do castelo, Sion.
— Você era forçada a ficar?
— Eu não queria criar problemas para os outros; assim, nunca tentei desobedecê-lo. A seu modo, as pessoas eram gentis comigo. E ninguém tinha coragem de enfrentar Camden. Também eram vítimas dele.
— Não quer que ele pague por tudo o que lhe fez?
— Céus! Não! Não quero nada de Camden. Vingança é perda de tempo, não mudará nada. Agora que tenho certeza de que ele não me reconheceu, quero viver a minha vida longe desse homem.
A carruagem percorria agora lugares arborizados. Subitamente, algo atraiu a atenção de Danae: um pequeno cachorro que ela nunca havia visto.
— Qual a raça daquele cachorrinho? — perguntou a Sion.
— Sendo uma condessa italiana, você deveria conhecer essa raça de cachorro. É um cachorro italiano, é um galgo, famoso por ser companheiro das senhoras nobres. Foi criado para sentar no colo delas e livrá-las de pulgas, creio eu.
Danae continuou a olhar para o cachorro. Considerava ridículo usar um animal tão lindo para pegar pulgas.
— Que uso terrível para um cachorro tão belo. Onde posso conseguir um?
— Verei o que é possível fazer. — Sion sorriu.
— Praça Berkley, milorde! — avisou o cocheiro.
Olhando para Sion, Danae percebeu que a expressão doce do seu olhar mudara completamente. Ele não mais parecia o homem carinhoso e delicado de antes.
— O que está sentindo nesse momento? — indagou Danae.
— O que acha que sinto?
— Medo?
— Precisamente.
— Sion. — Ela apoiou a mão sobre um dos joelhos dele. — Talvez devêssemos estar em outro lugar. Lidar com antigas lem­branças pode não ser conveniente para você neste momento.
— Se não consigo nem ver o retrato dela, como poderei entrar naquela casa? E isso que você quis dizer, não é?
— Sim. Por favor, vamos para outro lugar.
— Tenho que fazer isso, Danae. Mas creio que por enquanto é melhor que eu a leve para um hotel.
— Não! — ela quase gritou. — Ficaremos juntos. Não permi­tirei que me deixe. Você precisa de mim.
A carruagem virou mais uma rua e, pela expressão de Sion, Danae percebeu que haviam chegado.
Olhando pela janela, ela viu a magnífica casa. Era maior que as demais casas do parque.
Danae sabia que, quando descesse daquela carruagem, sua iden­tidade seria outra.
A porta da carruagem foi aberta, e ambos desceram. Um pe­queno contingente de criados esperava pelos dois.
— Venha, querida. Fique ao meu lado, temos uma pequena platéia.
— Sion — ela murmurou. — Acho que não posso fazer isso agora. Não me lembro de nenhuma palavra em italiano.
— Não temos escolha, Danae!
Ela resistiu e, decidido, Sion a tomou nos braços. Os emprega­dos murmuraram alguma coisa, e alguns deles se aproximaram para ajudá-lo, mas ele os afastou.
Entrou e foi diretamente para a biblioteca. Lá pôs Danae em um sofá, diante da lareira.
Foi ao armário de bebidas, pôs conhaque em um copo e ajoe­lhou-se perto de Danae, fazendo com que a jovem tomasse um gole da bebida.
Depois de engolir, ela arregalou os olhos e cuspiu o líquido.
— Melhorou, querida? — ele perguntou, as roupas agora man­chadas de bebida.
— Água, por favor — Danae balbuciou.
Sion nem teve chance de se levantar, e já um criado se aproxi­mava com um copo com água, que o marquês apanhou.
— Obrigado. É tudo por enquanto.
Aliviados, os dois viram a porta se fechar depois que o criado se retirou.
— Danae, você quase desmaiou! Precisa se controlar.
— E você tentou me envenenar! O que era aquela bebida horrível?
— Era conhaque da melhor qualidade. Meu pai só bebia dele
Sion afirmou, olhando para o conteúdo do copo com olhar ávido.
Nem pense nisso! Como pode tomar uma coisa dessas? Seu organismo deve estar queimado por dentro.
Com um suspiro, Sion olhou ao redor. Tudo estava na mais perfeita ordem. Os móveis encerados, os tapetes persas limpíssimos, como também os livros da vasta biblioteca de seu pai. Os criados haviam mantido a propriedade impecável.
Sem dúvida isso tinha a ver com Jonas Glendower, seu secre­tário e amigo íntimo.
Lembrou-se da última vez que vira Jonas. Completamente em­briagado, empurrara-o porta afora, xingando-o e praguejando. Es­perava que seu amigo pudesse perdoá-lo. Apenas Jonas ficara ao seu lado durante o julgamento, e continuara a cuidar de todos os seus negócios. Sion achava que talvez nem merecesse seu perdão.
Sion sentiu vertigem, e uma vontade imperiosa de voltar ao campo, levando consigo Danae. A idéia de ficar sem ela era-lhe insuportável.
Percebendo o que se passava com o marquês, Danae pegou seu rosto entre as mãos e beijou-lhe os lábios.
Gemendo, Sion retribuiu o beijo, e a cada caricia de Danae, sentia sua pele e sua mente rejuvenescerem.
Entretanto, mesmo diante daquele homem que não escondia sua vulnerabilidade, e do qual ela gostava, Danae se lembrou de que Sion não passava de um homem. No final, são todos iguais, pensou.
Levantando-se do sofá, interrompeu o que estava prestes a acon­tecer entre os dois.
Sion viu a porta abrir-se e Danae sair, frustrando seus desejos.
Será que ia se curar de um amor interrompido pela morte e ficar à mercê das vontades de Danae?
A resposta era "sim"; mesmo que sua vida se transformasse em um inferno, queria aquela mulher mais que tudo. E ela seria sua.

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